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Partilhando e dedicando pequenas leituras – Parte I: De Clarice para Mayara

Lendo novamente as crônicas maravilhosas de Clarice Lispector, escritora tão profundamente alegre e triste como agora me sinto, lembrei-me de Mayara Melo. A mulher que é sempre tão ocupada e que foi incumbida e que assume com tanta dedicação esse “Tomar conta do mundo”, em não se ganha dinheiro e não se sabe a quem prestar contas. Eu li e identifiquei. Ofereço-te, portanto, essa crônica nesse tedioso e enfadado domingo.

Eu Tomo Conta do Mundo – Clarice Lispector

“Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante à noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho,  se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapose magérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e, sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego, pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei.
Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo. Só não encontrei ainda a quem prestar contas.”

Um ponto colorido do sonho no cinza da realidade

O que dizer de Dinah, a personagem bíblica? O judaísmo praticado por sua família era detido por seu pai Jacó e reproduzido apenas aos seus irmãos homens. Suas mães eram declaradamente pagãs e ensinaram a essa moça o culto aos deuses/as de casa. Rituais em uma profunda conexão com as suas realidades, cotidianos e ambientes.

Mas Dinah, por ser uma personagem bíblica, carrega consigo um padrão de religiosidade. Ok. Então, dando um tremendo salto na história, o que falar de Frida Kahlo, uma mulher comunista e convictamente ateia, mas que mantinha uma relação de intensa sacralidade com sua madrinha Morte?

Introduzo com esses questionamentos porque nos últimos anos tenho me recusado a viver qualquer religião que seja. A razão: fui praticante do cristianismo, onde aprendi muita coisa. Jesus tem realmente uma obra interessante, mas que foi estragada pelos seus sucessores e, por esse motivo, nesse espaço também vivi profundas contradições que foram desgastando a minha fé. Tornei-me um descrente.

Embora não quisesse, como continuo não querendo, ser parte de alguma religião, não significa que eu não tivesse interesse de trabalhar questões relativas à minha espiritualidade. É um assunto que há tempos quero e venho tentando resgatar, trabalhar, resignificar. Só que ela, infelizmente, tem sido aprisionada pelas religiões. Está aprisionada a figuras divinas. Isso contribui para dificultar uma prática alternativa, doméstica e cotidiana da espiritualidade como faziam os povos antigos.

Tendo essa angústia como ponto de partida, me fiz a seguinte pergunta: Mas afinal de contas, o que é espiritualidade? É clichê, mas gosto muito da resposta de Dalai Lama a Leonardo Boff, quando o mesmo fez essa pergunta:

“Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”

Essa definição pode ser interpretada de várias formas. Na minha, não vejo expressa a obrigatoriedade de se praticar uma religião e nem mesmo crer em deuses e deusas, ou outros seres sobrenaturais para fazer esse exercício de “mudança interior”. Entendi, portanto, que conheço muita gente que, assim como Frida Kahlo, se afirmam ateias, mas são totalmente conscientes dessas constantes mudanças que devemos fazer, nos vários aspectos da vida: o individual, o coletivo, na política, na família… Logo, são pessoas, que de alguma forma, têm espiritualidade.

No meu caso, mesmo tendo assumido uma postura mais cética, não posso afirmar com 100% de certeza que não acredito no sobrenatural. As práticas familiares pesam muito. Logo, essa minha postura quer dizer apenas que para mim, acreditar ou não em alguma coisa não é vital. Uma questão vital para mim é provocar sempre essa mudança interior que é extremamente paradoxal: conhecer minhas potencialidades (valorizando-as) e limitações (observando-as e trabalhando-as), assim como as das pessoas que me circundam; de me manter ao mesmo tempo na luta por transformação, que algumas vezes são tão pesadas e desumanizadas, mas também ter harmonia para fazer esse percurso de uma forma mais leve; e, como consequência desses dois primeiros paradoxos, viver bem.

A psicologia não dá conta da nossa complexidade, apesar de ser importante para nos compreender de alguma forma. Digo mais ainda, nenhuma ciência dará, pois nos avalia a partir de arquétipos. As religiões, desde as mais antigas às mais contemporâneas, também não. Aliás, acho que nunca desvendaremos os nossos próprios mistérios assim como os mistérios que nos circundam. Enquanto humanidade, sabemos muito, mas quando comparamos com o que ainda temos a aprender, não sabemos nada.

A única certeza que temos, ou deveríamos ter, é que há coisas nessa vida que se pode provar e outras não. Tendo isso em mente talvez fôssemos mais tolerantes e tivéssemos mais compaixão para com os outros e conosco. Buscaríamos o que procuramos com mais tranquilidade. Seríamos, cada um, o ser único que é. Que vive e convive em diversidade. Dessa forma, nos aceitaríamos como sistemas abertos, onde as trocas, as conexões, as experimentações fossem mais saboreadas, mais ousadas e acolhidas.

O que dizer de mim? A minha inacabada espiritualidade, sem Deus, sem reza e sem Bíblia, me faz bem e me torna melhor por isso. Porque me permite participar, mesmo que por poucos segundos, do prazer de viver isso que mencionei acima. É a minha utopia, minha mística que me alimenta para a dureza do cotidiano e das relações que construímos. Logo a minha espiritualidade não me desenraiza do chão da realidade. Ela não me faz perder de vista os desafios que temos. Em suma, ela é apenas o meu ponto colorido (sonho) no cinza (realidade).

PS.: Eu tinha abandonado essa prática, mas esse texto da Renata Lins me fez retomar esse caminho.

Machismo: o desafio de enfrentá-lo no cotidiano

Considero-me uma pessoa que conhece muita gente. Interajo, faço graça, converso e participo. Entretanto, isso de maneira alguma significa que eu considere as pessoas que cotidianamente interajo como amigas ou que queira um bem acima do normal. Esse sentimento costumo a dedicar a pouquíssimas pessoas e, não a toa, são todas elas mulheres.

Uma viagem de campo que fiz com uma equipe do meu trabalho, ela toda composta por homens, reforçou ainda mais a minha predileção pela companhia das mulheres e põe o desafio de construir alguma amizade que seja nesse novo lugar. Posso adiantar que é muito pouco provável que se essa amizade surgir, seja por alguém do sexo masculino.

Pois bem, hoje, o caminho de ida da sede até a comunidade e de volta da comunidade até a sede foi regado pelo machismo. Mulheres e homossexuais foram evocados de forma chula e amplamente objetificados. Em um carro em que iam cinco pessoas, todas elas do sexo masculino. Quatro relatavam as suas histórias de dominação masculina e se divertiam com os causos de opressão.

Eu estava em desvantagem e a única forma que encontrei de não participar de forma alguma daquilo foi bancar o esquizofrênico. Virei a cara para a janela e fingi não dar atenção alguma à conversa. Mas não estava surdo. Eu ouvi tudo e dentro mim a minha indignação gritava. Tive vontade de abrir a porta do carro e me jogar estrada abaixo.

Talvez a minha fama de antissocial e antipático, que é a impressão inicial que as pessoas normalmente tem de mim quando me veem, tenha se reforçado. Entretanto, com essa fama eu não me preocupo. Para mim, mas vergonhoso que ser antissocial, antipático, metido, nerd, besta e variações é ser machista, reproduzir o machismo e ter orgulho disso. Não me reconheceria se levasse a diante esse título.

Na minha cidade natal, encontrei pessoas e me aliei a elas para combater esse mal em mim, no meu cotidiano e quem me circunda, pois éramos todos/as relativamente iguais, compartilhávamos uma mesma cosmovisão. Aqui, sinto que será diferente e difícil. Por hora os leões e leoas da minha rebeldia estão sendo domados(as). Só não posso garantir que manterei esse comportamento sempre. Resta encontrar uma maneira de como combater esse mal nesse meu novo cotidiano, onde as cosmovisões sobre o masculino e o feminino estão tão engessados. Eis um desafio que se torna mais difícil quando não se tem aqui, com quem se dividir isso.

“Ever unfolding, ever expanding, ever adventurous and torturous, but never done”: Alanis e minha vida.

Sem nenhuma dúvida, Alanis Morissette é a artista que mais canta a trilha de minha vida. Essa identificação de sua música e da minha vida completou esse ano apenas 10 primaveras! Apesar de o disco Jagged Little Pill ter sido lançado bem no início da minha puberdade, no ano de 1995, foi apenas no ano de 2002, entre os meus 17-18 anos, que me apaixonei por sua musicalidade.

Tive uma adolescência tardia. Até os meus 16 anos de idade tinha muitos comportamentos infantis embora já tivesse o corpo adulto. Nesse tempo eu ainda assistia desenho animado, brincava com meus primos menores e tinha um verdadeiro horror à cultura adolescente da minha época.

Apenas aos 17 anos, quando comecei a trabalhar, fui amadurecendo. Nesse ano, estava terminando o Ensino Médio e fiquei amigo de uma moça que era odiada por toda escola. Os motivos: ela era subversiva, rebelde e lésbica. Engraçado como esse comportamento sempre me apaixonou. Nós viramos grandes amigos.

Certa feita, após a aula, essa amiga me convida para almoçar na casa dela. Nessa mesma tarde ela me ensinou a tocar violão, a cantar (ela tem uma voz maravilhosa) e me apresentou o seu gosto musical. De todos os sabores experimentados naquela tarde, Alanis Morissette foi o bolo de chocolate (comida favorita sempre)! Ela tinha apenas um cd dessa artista, o Supposed Former Infatuation Junkie, gravado em 1998. Nesse cd havia apenas uma faixa conhecida, That I Would Be Good, trilha do casal Regina (Letícia Spiller) e Adelmo (Ângelo Antônio) da novela Suave Veneno. É claro que houve uma aproximação com a artista a partir dessa trilha de novela. Mas eu pedi o cd emprestado à minha amiga e devorei o encarte e as canções.

Esse cd reúne 17 faixas com melodias que variam desde a simplicidade de Your Congratulations e Are Still Mad, as de sonoridade suave como There Are Be Good, Thank U, UR, Unsent e Heart of the House, e as de sonoridades e letras mais cruas e pesadas como Baba, Sympathetic Character, Can’t Not, I was hoping, Would Not Come e Joining You. A música que mais me identifico desse cd? Sem pestanejar Can’t Not. Quem sabe algo sobre mim pode confirmar isso. A segunda seria Would Not Come.

Lembro que naquela época não tínhamos acesso à música como hoje. O acesso à internet era muito limitado às classes sociais mais abastadas. Um ano mais tarde, em 2003, um amigo de infância, que tinha acesso à internet, que tinha aprendido a baixar música e que tinha um computador que gravava arquivos em cd, me presenteou com um cd da Alanis. O Unplugged. Ele foi a porta de entrada para o Jagged Little Pill.

Sim, todos sabemos que o Jagged Little Pill é o melhor cd. Apesar da não uniformidade, da falta de rima em alguns versos, nesse cd, Alanis se permitiu se ler, se analisar e se escrever. Nesse cd ela se libera. Esse movimento de liberação foi acompanhado por muitos fãs, inclusive eu, mesmo que tardiamente, em 2003. É difícil dizer que música gosto mais, mas You Oughta Know fala muito de mim e dos meus relacionamentos amorosos… Pois é, eu ainda vivo um You Oughta Know.

Muita gente deixou de acompanhar a evolução da Alanis porque ficou estacionado no Jagged Little Pill. É sem dúvida o seu melhor trabalho, mas muita música boa foi composta depois dela. As que me identifico são Unsexy, Narcissus e Utopia, do Cd Under Rug Swept de 2002 (primeiro cd original que comprei em 2003); Sorry to Myself e Simple Together do cd Feast on Scraps, também de 2002; Eight Easy Steps, Out Is Through e Not All Me do álbum So-Called Chaos; e Moratorium e Tapes (que inspirou o título desse Blog) do cd Flavors of Entanglement.

Foi na turnê do Flavors of Entanglement que realizei o sonho de ter ido a um show da Alanis! Certamente umas das noites que jamais esquecerei, apesar de ter estado tão, mais tão longe do palco!

Atualmente Alanis casou, teve um filho e gravou novo álbum “Havoc and bright lights” que deve retratar essa experiência. O novo single Guardian parece dar esse sinal. É uma letra bonita, num arranjo característico da artista, mas num vídeo que achei muito pobrinho. Ainda estou conhecendo as outras faixas e não sei avaliar o quanto vou gostar ou desgostar dele. Pode ser que depois de outros 10 anos, eu possa voltar aqui e falar nisso.

Rompendo silêncio sobre as eleições. Por favor, não me venham convencer de nada!

Este ano resolvi não fazer campanha e nem divulgar aos quatro cantos do mundo em quem vou votar. Esse fato causa um certo frisson, pois fica a impressão de que, ou eu vou votar em qualquer pessoa, ou vou anular meu voto.
Eu realmente não vejo necessidade de ficar justificando nada, mas aviso que não vou votar em qualquer candidato(a), tanto que já me posicionei claramente em quem não vou votar nas minhas redes sociais e faço um trabalho de patrulha mesmo a quem considero indigno do cargo de representante do povo. Podem me chamar de ignorante, podem rir das minhas análises. Eu não me importo com o que os sabichões da politica vão achar disso. Eu sou povo e também manifesto minhas insatisfações a partir das demandas do meu grupo social e de outros com quem me solidarizo.
Em resumo, para não encompridar a conversa, declaro aos candidatos(as) e candidaturas que de alguma forma já participaram da estrutura formal de politica aqui na cidade de Fortaleza, ou que ficam pagando de tiete para os coronéis da velha politica, ou ainda tem suas campanhas financiadas por empresas, ou que deixam para inaugurar as obras municipais no ultimo ano de gestão, como possibilidade de eleger seu candidato,  não contabilizem o meu voto como favorável a vocês. Mesmo no segundo turno. E nem adianta pressionar com aquele argumento de que a gente precisa eleger um candidato menos ruim.
E digo mais, se não houvesse no primeiro turno candidato em que ainda deposito alguma esperança, que hoje é  minima, certamente eu votaria nulo. E por mais que eu fosse bombardeado de argumentos de que isso não se faz, etc., etc., etc., eu sustentaria a minha posição. Está muito claro para mim que tanto o modelo de politica formal em curso, quanto o processo político-eleitoral são burgueses. Como não quero compactuar com esses modelos ditos democráticos (sic), crio sim a minha alternativa de democracia! Não voto e nem vou votar em nenhum deles!
Se você realmente acredita em democracia, em liberdade e em exercício de direitos, espero de verdade que você respeite a minha decisão. Caso o contrário, vá gastar sua retorica com outra pessoa!
Acha-me radical? Beleza, isso nunca me ofendeu!

Interiorizando…

Com poucas mudas de roupa na mochila, pouco dinheiro no bolso e uma sobrecarga de sentimentos no coração parti da capital rumo ao interior. É um movimento subversivo, pois normalmente as pessoas saem das pequenas cidades rumo às metrópoles atrás das oportunidades.
Saudades agora passam a ser um sentimento constante: da antiga rotina, dos meus objetos, da família, dos poucos/as amigos/as e dos amores. Mas a perspectiva de mudar urge.
Além de fazer o movimento de interiorização geográfica, essa mudança é uma oportunidade para voltar a mim mesmo, olhar para dentro, chegar a níveis mais profundos da minha “Janela de Johari”. Se misturam no meu peito o saudosismo e a expectativa.
Mas essa sobrecarga no coração, para a minha sorte, foi e está sendo aliviada! Rostos sorridentes, solícitos e acolhedores me distraíram das angústias. Preocuparam-se em me acomodar, em não me deixar só nas horas das refeições, na realização das atividades profissionais… Não sei se essas pessoas serão consideradas amigas (que para mim é um grupo muito pequeno de pessoas a quem confio tudo), mas certamente serão as minhas novas companhias diárias, com quem compartilharei as delícias e as agruras de um novo viver.
De certo que ainda é muito cedo para fazer qualquer previsão, mas acho que um tempo aqui será um exercício de crescimento muito importante. Dessa forma, os sentimentos do presente em mim saúdam as novas preocupações e tranquilidades, os novos sabores e desabores, os novos motivos para rir e para chorar, os novos amores e desamores, os novos gozos e desgostos.
Aqui encontrei lugar para armar minha tenda. Aqui quero encontrar novas pessoas na possibilidade de fazer alianças com elas. Aqui quero reencontrar comigo mesmo.

 

Chegou Setembro! Um Balanço na Vida

É fato. Desde que tomei consciência disso, o mês que antecede meu aniversário é sempre repleto de muitas delicadezas. Já me convenci que é meu inferno astral. Engraçado que há um ano também falei disso por aqui. Pode ter gente que me diga “mas cara, isso não tem relação alguma”. Pode ser que não tenha. Mas acontece que é o que sinto, e não me importa se é de ordem astrológica ou psicológica. Apenas sinto.

Os sentimentos ficam superdimensionados. Fico emocionalmente mais instável.  Mais deprimido do que de costume. Tenho necessidade de companhia constante dos amigos e amigas, da família, dos casos amorosos. A solidão definitivamente não se torna a melhor companheira e tendo a ter grande apego pelas coisas e pelas pessoas.

Ano passado escrevi sobre isso. Este ano, essa fase já começou com uma grande crise no campo sentimental. Já foi mais doloroso. Agora ainda dói, mas de uma forma mais branda, pois nesse tempo pensei em mim, pensei na pessoa e estabeleci limites entre eu e a pessoa. Coloquei-me no lugar de centro e desloquei a pessoa para outro lugar que ela ainda tem na minha vida. Com toda franqueza, é difícil tirar alguém de mim. Então, vou redistribuindo as pessoas pelos cômodos do meu coração.

Digo que nem foi e nem será o tempo que propiciou ou propiciará essas redistribuições de prioridades e sim o que fiz e o que vou fazer com ele (o tempo) para favorecer isso: terminei a parte mais difícil da dissertação; reaproximei-me de amigos(as) que há muito tempo não conversava; reativei os meus laços virtuais de amizade; e estou retomando o blog. Tenho ainda muitas metas traçadas no início do ano para dar encaminhamento. Chegou a hora de dar um peso significativo a isso.

Mas esse mês também é marcado por mudanças. Mudanças que são sempre pertinentes, embora dê certo medo. Requer de mim um pouco mais de coragem. E no quadro dessas mudanças, uma nova oportunidade de trabalho. Um trabalho que vai exigir que eu “me mude” (entre aspas, pois continuarei com minha casa em Fortaleza para passar os fins de semana) para outra cidade. E como vai ser tudo isso? Não sei. E o não saber me gera ansiedade, expectativas, alguns receios.

Mas embora setembro seja um mês mais forte para mim, a vida da gente está longe de ser uma constância de alegrias e tristezas. Nada se concentra em apenas uma época. Tudo se dilui em meses, anos e décadas. Como disse minha amiga Gigi Castro:

“dias que vão e que vêm, uns bons, outros nem tanto; questões que passam ou permanecem, dando conta daquilo que a gente às vezes não quer perceber; sentidos que constantemente se transformam, porque não têm razão em si, são só brinquedos pra fazer a alma crescer; ganhos, perdas, dor, prazer, alegria e tristeza, elogio ou crítica – tudo tudo tudo tudo tudo isso é puro exercício de viver. ai da gente quando, por dis.tração ou preguiça, resolve disso esquecer!…”

Diante disso, uma coisa eu posso dizer sobre mim. Pela profundidade de alegrias e tristezas em que vivo as coisas o ano todo, mas sobretudo em setembro, fica implícito que não me distraio e nem sinto preguiça de viver. Da minha vida e suas delícias, que partilho com os meus e minhas, e agruras, que espalho aos sete ventos pra todo mundo saber, eu não esqueço.