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Uma “parada” de afirmações e contradições

Ontem, dia 26 de julho de 2011, aconteceu em Fortaleza, a XII Parada pela Diversidade Sexual do Ceará, com o tema “Unidos/as somos mais fortes: pela aprovação do PLC 122/2006 já!”. A parada de Fortaleza é uma comemoração pelo dia municipal da consciência e cidadania de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros (celebrado no dia 28 de junho na cidade de Fortaleza).

Acho bacana ter um evento como esse, pois assim como se faz festa para comemorar qualquer dia cívico (o aniversário da cidade, o dia da consciência e cidadania negra, dia do/a trabalhador/a), o dia municipal da consciência e cidadania de LGBTT também tem que ser celebrado, afinal representa um avanço do movimento num contexto de desrespeito e violência contra homossexuais. É um momento como se os homossexuais tivessem que passar da invisibilidade do mundo privado, para visibilidade das vias públicas.

Pessoalmente, gosto de ir a marchas e passeatas com um caráter mais politizado, como é o Grito dos/as Excluídos/as, a Marcha da Liberdade, das vagabundas. Onde são cantadas as músicas que marcam a luta e a resistência dos movimentos, onde são entoados os gritos de ordem, onde há momentos em que os microfones e megafones são disponibilizados para que os sujeitos possam fazer falas públicas sobre o tema do evento. É óbvio que também freqüento festas públicas em comemoração aos dias cívicos, dependendo da atração, da estrutura e do formato da festa.

A Parada pela Diversidade Sexual de Fortaleza tem o formato de desfile, com muitos trios, muita música eletrônica e muita gente para mostrar a sua beleza, para se afirmar enquanto sujeito, para se divertir, para ser solidário/a e, infelizmente, para demonstrar o seu ódio e o seu desrespeito contra as pessoas que estão presentes na festa.

Quando eu fui, há uns dois anos atrás, eu achei muito bonito as cores, as pessoas, as performaces, entretanto, no mesmo momento, eu ficava muito apreensivo, pois haviam muitos assaltos, muitas brigas e muito desrespeito.

Não vou chegar a problematizar os assaltos porque não acontece apenas na Parada. Este fenômeno, infelizmente, acontece em outras festas e até mesmo no nosso cotidiano, decorrentes da exclusão social, do não acesso aos direitos básicos, etc. Mas alguns episódios de desrespeito e de brigas decorrentes disso não podem ser invisibilizadas! Ainda mais dentro de um movimento LGBTT!

Eu mesmo só não me meti em confusão, porque realmente não sei agredir ninguém fisicamente, mas se eu fosse dar uma porrada em cada babaca que vinha, por exemplo, apertar a minha bunda, acho que não teria mais dedos para digitar esse texto.

Todo arsenal de palavrões era usado por mim para alertar o abuso das pessoas, que pareciam não está nem aí para o que estava dizendo, como se quisessem dizer “se não gostou: fuck yeah”.

Teve apenas um caso onde um cara que veio me apalpar ia devolver as minhas ofensas verbais com agressão física, mas para minha sorte, havia um grupo de policiais por perto que viram e tratou de afastar o babaca-sem-noção.

PS.: entre os babacas-sem-noção não estavam apenas homens-heterossexuais não, inclua héteros e homossexuais, do sexo masculino e feminino!

O mais absurdo são as pessoas próximas a mim acharem isso absolutamente normal. Eu é que estava sendo chato e careta porque pessoas que eu não conheço, que não tenho um pingo de afetividade vinham me apalpar sem que eu quisesse.

Diante daquilo fiquei refletindo: “Como é? O fato de ser um evento promovido por homossexuais dá alguma permissão de qualquer alguém chegar no meu corpo e tocá-lo sem o meu consentimento?”.

Muitas pessoas homossexuais já escondem seus sentimentos por medo da violência por parte da sociedade. Alguns apelidos como viado, bicha, baitola, sapatão já me soam como violência, mesmo na brincadeira. Os corpos de homossexuais são frequentemente passíveis a essa violência, que vai desde o toque não consentido das genitais até os casos extremos de estupro!

A cultura machista (presente em homens e mulheres) trata logo de naturalizar a questão e culpar as vítimas, como se elas “se deleitassem” com esse tratamento, devido a uma espécie de masoquismo que é próprio de quem freqüenta um lugar ou é um LGBTT. Como se tivesse valendo chamar o/a amigo/a homossexual de viado e sapatão, e fazer o que quiser com o corpo dele/a porque ele/a gosta, OBS.: sem a permissão dele/a.

Não problematizar essa questão perpetua uma forma particular de dominação simbólica sobre os corpos dos/as homossexuais, limitando, ou até mesmo negando, a sua existência pública e visível! Ou seja, ele/a não vai pode aparecer publicamente sem que seja identificado com aqueles apelidos pejorativos, ou associado à promiscuidade, dando licença a qualquer um usar o corpo dessas pessoas como queira.

Creio que, a exemplo da Marcha das Vagabundas promovido pelos movimentos feministas, valeria a pena o movimento LGBTT mobilizar a sociedade com relação aos estigmas que sofrem os corpos dos homossexuais, no sentido de fazer oposição, ao invés de corroborar, ao discurso dominante de que homossexuais são promíscuos, portanto tem que aceitar serem insultados e terem seus corpos assediados.

A aprovação do PLC 122 colabora com esse tipo de cultura anti-homofobia explícita ou implícita.

Voltando para a Parada em si, acho realmente um evento fantástico porque mobiliza um número grande de pessoas de todos os gêneros, de toda as cores e com um humor e um ritmo próprio. Porém, fico um pouco decepcionado porque ela consegue reunir um número expressivo de pessoas, mas não conseguem despertá-las para questões mais políticas, formá-las para um debate mais qualificado. Um exemplo é um amigo que mora na minha casa (que também é gay) mais outro amigo dele e o namorado que voltaram da parada chateados com a violência contra seus corpos (tiveram as bundas apalpadas como eu fui a dois anos atrás), quase foram assaltados e quando perguntei sobre o que foi falado sobre a PLC 122 lá, eles simplesmente nem sabiam do que se tratava.

Vale a festa, a alegria e as cores para celebrar, mas vale a luta e  a mobilização no sentido de uma mudança concreta das representações sociais, na transformações de consciências, no rconhecimento das particularidades e da saída de armadilhas (sob formas de piadinhas, brincadeirinhas e pegadinhas) que nos submetem a dominação masculina-branca-heterossexual!

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1 Comentário

  1. […] Uma “parada” de afirmações e contradições, de Tiago Costa […]

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