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Sobre O Tempo… Sobre O Trabalho

“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei”

“Falta um tanto” para sair de um trabalho e entrar em outro, ou dedicar o tempo em que estamos acordados para ser vendido/usado/apropriado para enriquecer o outro, enquanto nós apenas sobrevivemos e nos falta tempo para viver.

O tempo no chamado “mundo industrializado, globalizado e capitalista” é dinheiro, e se num for, deve servir para ganhá-lo, para que continuemos consumindo, criando necessidades que não temos, para continuarmos querer consumir cada vez e para isso temos que vender o maior tempo possível do nosso tempo, às vezes até o tempo do sono.

Não há nenhuma vez que pense sobre a relação tempo e trabalho na lógica capitalista que num me lembre o filme “O Diabo Veste Prada”.

Se pegarmos a personagem da atriz Anne Hathaway (Andy Sachs), recém-formada em jornalismo, que investiu todo o seu tempo, inclusive os de sono, para se dedicar ao trabalho numa revista de moda porque representaria uma chance de ascensão. Caso ela não fizesse isso, ela seria responsável pelo não sucesso dela.

Essa personagem é o arquétipo que o sistema capitalista quer que sigamos, pois ela cumpre três requisitos: primeiro, dedique seu tempo para se qualificar para ser explorado; segundo, conseguiu um emprego? Permita-se ser explorado; terceiro, aceite o fato de que o seu sucesso está relacionado ao grau de dedicação ao seu patrão, afinal ele abre ou fecha as portas, no caso de Andy, no finalzinho do filme ela consegue a vaga que tanto desejava sob a influência de Miranda Priestly (Meryl Streep), que representa muitos/as dos/as chefes que estão espalhados/as por aí: comandam suas empresas, e controlam a vida e o tempo de seus empregados/as.

Mas nem sempre a medida de tempo que dedicamos ao patrão é garantia de que no futuro possamos ficar no lugar dele. Lembremos que as oportunidades não são iguais para todo mundo, por mais que o Tio Sam diga que sim. Há de se considerar duas questões bem importantes: o grau de explorador e explorado varia de acordo com a classe, com o gênero e com a raça. Grande parte dos exploradores são homens-brancos-ricos/classe média que criam artifícios (via ideologia, projetos de “desenvolvimento”) para a apropriação do tempo, e grande parte das exploradas são mulheres-negras-pobres tem como perspectiva futura a invalidez, as doenças …

O caso de Andy está no meio dos extremos. E digo que muitas das pessoas que conheço e inclusive eu, que reclamamos da nossa falta de tempo, vivemos esse contexto. Sou branco, do sexo masculino e passei pela universidade. As minhas pretensões é poder seguir uma carreira estável, mesmo que antes disso seja explorado no meu trabalho (sim, somos também explorados nas ONGs), que tenha que passar noites acordado, que não tenha tempo de ir visitar minha família e amigos/as queridos/as como tem acontecido ultimamente, para que eu possa conseguir esse espaço. Alguém aqui é bem parecido com a Andy…

Em um dos meus desabafos sobre a falta de tempo a Niara do Pimenta com Limão  me deu essa dica, que é mais um alerta do que uma dica. Creio que o trabalho e o estudo são coisas importantes e todo mundo tem que ter direito ao acesso a essas duas coisas, mas sem perder de vista o que representa o tempo livre para vivenciar as afetividades, para viver o lúdico, para fazer música, poesia, pintura, para permitir aumentar a qualidade de vida. Isso é resignificar a nossa relação com o tempo, como nos ensina tão bem as comunidades tradicionais, onde o tempo para o trabalho é apenas o suficiente para nos manter vivos.

Mas voltando pra mim, tem duas delicadezas que ainda estão rebobinando na minha cabeça relacionadas a minha falta de tempo livre: uma é sobre a Capes (forca do mundo acadêmico) e outra é sobre as relações trabalhistas dentro das ONGs… mas cada uma delas merece um tempo para pensar e refletir, logo, deixemos para o futuro pois o tempo de agora é para outras coisas!

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3 Comentários

  1. suzana disse:

    Ótimo post Tiago .Com esta lucidez, a tua decisão,seja qual for, será a mais acertada! 🙂

  2. Relações trabalhistas nas ONGs é um tema excelente, Tiago – e perigoso. Existe um verdadeiro vespeiro prontinho para ser implodido… 🙂 ONGs pregam várias coisas no campo do discurso: promoção da autonomia e da cidadania, comportamento ética, etc… E, por serem as ‘portadoras’ desses valores as ONGs se proclamam mais aptas a exercerem funções sociais, que muitas vezes são funções típicas do estado.

    A coisa pega quando saímos do discurso e entramos nas praxis de cada instituição. E o primeiro – mas de longe não o único nem o mais nocivo – descompasso entre discurso e praxis está no campo das relações trabalhistas.

    Por algum motivo grande parte das ONGs ‘acredita’ que a legislação trabalhista é algo que elas podem – e até devem – ignorar. Contratam seus funcionários nas modalidades mais injustas do modelo de flexibilização do trabalho. É um festival de gente que tem toda a cobraça de um empregado CLT mas que é contratada por RPA, cooperativas, e até como estagio… Hora extra? nunca! mas em caso de atraso a cobrança não tarda: “isso são horas, fulaninho?”.

    E, nesse sinsitro circo promovido pelos dirigentes das ONGs os empregados são colocados no pior dos mundos. Sem direitos, muitas vezes são demitidos depois de anos de dedicação e não tem nada a receber. Fica o dilema: engolir a injustiça ou ingressar na Justiça? os que se decidem pela 2a opção sabem: a recolocação profissional será extremamente árdua…

    Enfim, esse é um dos aspectos que nos mostra que o mundo maravilhoso das ONGs é maravilhoso apenas para os ‘donos’ das ONGs…

  3. […] de ingressar na justiça ao invés de engolir a injustiça, como comentou o Felipe Corbett no meu post anterior. Share this:TwitterFacebookLike this:LikeBe the first to like this post. CategoriasUncategorized […]

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