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A HETERONORMATIVIDADE: uma subtração do que desejamos!

A sexualidade é uma dimensão humana atribuída a busca pelo prazer. No contexto de uma sociedade estruturada pelo patriarcalismo cristão e heterossexual essa dimensão tem sido colocada em um plano de negações, principalmente para as crianças, mulheres, homossexuais e idosos. Em outras palavras, a sexualidade só é socialmente aceita dentro de um padrão masculino e heterossexual, sendo as outras formas vistas como doentia, estranhas, pecaminosas…

Dentro da minha experiência, viver esse contexto de sexualidade do ponto de vista masculino e heterossexual acarretaram em muitas culpas, tristezas e sofrimentos.

Mesmo que a sexualidade seja uma dimensão negada à criança, sofri abuso sexual na infância. Não me lembro com que idade ao certo, na verdade é um episódio da minha vida que tento ao máximo não me lembrar. Na verdade, penso que a maioria das pessoas, de alguma forma, sofreram abuso sexual nessa fase da vida. Mas é algo que a gente não lembra, ou não quer lembrar de alguma maneira.

Pelo que me parece, isso é uma prática permitida pela sociedade, pelo menos no plano real, afinal os desejos masculinos têm que ser prontamente atendidos, como se fizesse parte “da natureza dos homens”. Os casos de pedofilia que envolvem religiosos da Igreja Católica confirmam essa minha hipótese, pois a sociedade simplesmente silencia.

Na adolescência, aos 14 anos de idade, fui novamente vítima de abuso sexual. Isso fez com que quisesse definitivamente negar a minha sexualidade, pois mexeu com a minha autoestima, com os meus valores.

Apenas 10 anos mais tarde, a partir de muitas conversas e leituras sobre sexualidade, heteronormatividade, corporeidade, gênero e o próprio feminismo, fui abrindo janelas para vivenciar a minha sexualidade transgredido a regra homem-heterossexual-cristão.

Aos 24 anos tive a minha primeira relação sexual consentida. Foi dolorosa e travei diversas vezes, mas foi muito importante para dar continuidade a minha autodescoberta. A partir dela, pude ter outras várias experiências sexuais e hoje sei o jeito que gosto e que não gosto de ter prazer.

Porém, a norma heterossexual-masculina, ainda me impede de viver com a plenitude que desejo tanto a minha sexualidade quanto a minha afetividade. Isso porque nessas relações sexuais que vivenciei, especificamente três, queria algo além do sexo. Queria poder fazer sexo, conviver, conversar sobre diversas coisas, partilhar projetos e gostos com essas três pessoas.

No entanto, nem todo mundo está disposto a ousar a transgredir a regra, e no escuro, no escondido, para que ninguém saiba, vivemos só o sexo. Eu, gosto de sexo, mas com essas três pessoas (apesar de que apenas uma ainda está ao redor, as outras sumiram) queria algo mais que isso (não que queria um relacionamento fechado e monogâmico, mas um relacionamento aberto, claro e com espaços para troca) e já provoquei diversas vezes uma discussão sobre isso.

A resposta a essa minha provocação foi se afastar, se esconder e viver, porque é mais tranquilo, conveniente e saudável a suposta heterossexualidade deles. Parece que ninguém gosta de ser claro, gosta mesmo é de ficar se enganado. Assim brincamos de faz-de-conta, subtraimos os nossos desejos, vivemos de maneira superficial, utilitarista e descartável como deseja essa hipócrita sociedade cristã-heterossexual-branca-masculina-capitalista.

PS.: antes que digam que é mais um discurso da chamada ditadura gay quero afirmar que não tenho nada contra à heterossexualidade, apenas quando a mesma é colocada como regra.

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