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Um parêntese no “É a Gota D’água + 10”

Bom, depois de escrever alguns posts seguidos sobre as minhas crises emocionais, estou eu aqui para abrir um parêntese ao movimento “É a Gota D’Água + 10”.

Eu ficaria feliz de verdade se conseguíssemos, a partir desse movimento, barrar a construção da Belo Monstro. O vídeo é bacana porque publiciza aquilo que blogueiros, movimentos ambientalistas e indigenistas tem falado há muito tempo: Belo Monte irá provocar a alteração do regime de escoamento do rio, com redução do fluxo de água, afetando a flora e fauna locais e introduzindo diversos impactos socioeconômicos; a obra irá inundar permanentemente os igarapés Altamira e Ambé, que cortam a cidade de Altamira, e parte da área rural de Vitória do Xingu; altera todo o ciclo ecológico da região afetada que está condicionado ao regime de secas e cheias; etc.

Entretanto, uma coisa fez com que eu não compartilhasse o vídeo no Twitter e Facebook. Sei que prometi não reclamar e parar de ser tão do contra. Por esse motivo, eu comecei falando bem do vídeo, porque quero que ele possa de fato contribuir com a interrupção das obras da Belo Monstro.

A Belo Monte é uma materialização da perversidade do sistema do capital na apropriação dos recursos naturais, da forma como ele manipula o Estado para servir interesses individuais em detrimento do coletivo e da subjugação dos modos/meios de vida tradicionais que são vistos como atrasados, portanto, podem ser marginalizados com naturalidade para dar lugar ao desenvolvimento.

Agora me liguei na pergunta: “Qual o modelo energético que desejamos?”. A resposta foi “Energia solar e energia eólica”. Êpa, peraê…

Se formos a comunidades como a do Cumbe, no município de Aracati (150 km da capital do Ceará, Fortaleza), poderemos constatar que a Energia Eólica não é tão diferente do que representa a Belo Monte. Isso porque essa forma de energia, dita limpa, também chegou no Cumbe e em outras comunidades pesqueiras e indígenas da Zona Costeira Cearense com jeitinho de Belo Monte. De acordo com o Professor Jeovah Meireles (a quem me orgulho de ser orientando) “as usinas eólicas instaladas no Ceará resultaram em um generalizado e aleatório processo de fixação artificial, extinção dos sítios arqueológicos e privatização dos campos de duna de relevante interesse socioambiental”.

As dunas representam reservas estratégicas de sedimentos, água, paisagens e ecossistemas que desempenham relações sócio-econômicas vinculadas ao uso ancestral e sustentável das comunidades litorâneas e étnicas. De acordo com o relato de uma pescadora da comunidade do Cumbe, com quem conversei na semana passada, as eólicas tomaram o espaço de passagem dessa comunidade (que está entre o estuário do Rio Jaguaribe e a Praia – com esses campos de dunas no meio) para a praia e tomaram também o acesso dos moradores ás lagoas, local de lazer dos pescadores e pescadoras artesanais do litoral cearense.

Não posso deixar de relatar o que meus próprios olhos viram quando eu lá estava. Na época, 2009, estava fazendo trabalho de campo para a minha monografia e as usinas eólicas estavam em fase de instalação. Testemunhei a divisão da comunidade, casas de alvenaria rachadas (ocasionadas pela trepidação das tartarugas – caminhão que carregava os imensos aerogeradores que passavam na estrada de carroçal suja de piche), dunas terraplenadas, com vegetação desmatada e soterramento de muitas lagoas que lá havia.

Com isso não quero deflagrar guerra às eólicas! Não! Ela é realmente uma alternativa interessante. O problema é por quem e como essa alternativa está sendo executada!

Portanto, enquanto a lógica da produção energética for igual a da Belo Monte, mesmo a fonte de energia e de exploração dos recursos naturais dita mais sustentável, continuará individualizando patrimônios ambientais, subjugando populações tradicionais, destruindo e descaracterizando ecossistemas e ganhando muito dinheiro à custa disso, com investimentos públicos e aperto de mão do Estado.

Por isso, para além da Belo Monte, o sistema capitalista e a sua forma de apropriação das coisas e das pessoas é que para mim parece ser A Gota D’água!

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