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“Eu” e o meu “um”, ou “eu” “um”

Inicio o post de hoje compartilhando com vocês uma poesia de uma mulher forte, artista e socioambientalista cearense chamada Gigi Castro (ver blog É Preciso Ter Coragem de Ser Feliz).

 

Porque tudo tem um fim

                                                 Gigi Castro

 

Tem um sujeito muito doido que mora dentro de mim.

Não sei que nome lhe dar.

Sei que é “um” porque fosse “uma” seria mais fácil lidar.

Sei também que é secular, pois em muito se assemelha

Ao que muita gente viveu em épocas não parelhas.

Sei até que não é só “um”:

Tem formas bem variadas,

Umas nada tendo a ver com nada

A não ser com o seu desejo.

O seu desejo, que eu digo,

Que não é o meu desejo.

É o desejo de um sujeito

Que pensa bem do seu jeito

E que faz uso de mim.

O que ele ainda não sabe

É que eu dele sei também.

E que qualquer dia desses

Acaba o reinado dele

Porque tudo tem um fim.

 

Já havia afirmado em um post anterior que tinha decretado o fim dos dias de depressão. Este era mais um desejo do que um fato consumado. Esse “um”, de que fala a minha amiga Gigi Castro, tem tido mais força do que “eu” e tenho me deixado levar ao desabor das angústias, de um desejo que não queria sentir, de algumas tristezas e desolações.

Infelizmente, não acredito que o reinado do “um” tenha um fim. Creio que a batalha com “ele” seja incessante. Horas “somos” vitoriosos e horas “somos” nocauteados e nos deixamos levar aos devaneios, fraquezas, deslizes, covardias, enfim, daquilo que desejamos não ser ou sentir.

“Eu” e esse “um” “somos” o joio e o trigo da parábola bíblica. “Somos” semelhantes (acredito que “somos”, na real, a mesma coisa – pessoa? -, por isso tantos apóstrofos nos pronomes e verbos), não “podemos” ser separados, pois é como se as nossas raízes fossem entrelaçadas, tanto que se parte desse joio for arrancado, corre-se o risco de arrancar junto com ele o trigo. Acabar com o reinado do “um” é, consequentemente, acabar com o reinado do “eu”.

Entretanto,  quero mesmo é ressaltar a beleza e a utopia da poesia. A mim de uma forma pessoal foi importante lê-la. Creio que na dinâmica do viver, entre as nossas tristezas, azedumes, ranços, impulsos (chamamos aqui de “um”, de joio) é preciso crer na esperança de alegrias, de música, de sorrisos, de amasso, de brilho, de novos amores, enfim… de fazer triunfar aquilo que mais desejamos ser, sentir!

A vida de fato é esse joio e trigo, de angústias e desejos, de desesperos e esperanças. Conversando com a própria autora da poesia ela diz algo que de fato o é: “quando falo que tudo um dia tem um fim, é mais um desejo do que uma certeza. mas a vida é feita dos nossos desejos – e mesmo não os alcançando, a gente não deixa de tê-los” (Gigi Castro em conversa por e-mail).

Assim, mesmo em meio às turbulências, é preciso acreditar no diferente, na mística, na utopia, nas possibilidades… É a força que hoje tem movido os indignados de todo o mundo a ocuparem as ruas, por exemplo, e que tem que ser projetada para a nossa vida cotidiana também.

Exercício difícil nesses meus últimos dias em que as coisas não estão muito “certas”, mas que palavras como a dessa mulher têm me ajudado a encher de coragem e ousadia de enfrentar essas “incertezas”. Agradecido à poesia, à poeta e à tantas outras pessoas e manifestações dessas outras pessoas que nos fazem repensar no quanto ainda vale a pena lutar para viver!

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