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Dia 14 de dezembro: Não vejo o que comemorar (pelo dia do/a engenheiro/a de pesca)

Hoje, dia 14 de dezembro é dia do/a Engenheiro/a de Pesca…
Não sei se tenho muitos motivos para comemorar, afinal, assim como qualquer outro profissional formado pelas ciências agrárias, somos formados para contribuir com a expansão da produção de alimentos de origem animal nos moldes da lógica capitalista, que se apropria dos territórios, das águas e dos recursos naturais, gerando, contraditoriamente, a fome de muitas populações tradicionais.
Fazer esse percurso, de ser um estudante, e hoje um profissional, de engenharia de pesca é muito angustiante, tendo em vista as escolhas que fiz. Não tenho nenhuma pretenção de atender a demanda do mercado na oferta de alimentos sem fazer uma crítica a essa lógica… Nós, engenheiros de pesca, produzimos o que, quanto e para quem?
Creio que muitos de meus colegas de curso fizeram a opção de se integrar a esse mercado sem que isso se torne uma angústia, afinal, mais importante é ser incorporado as frentes de trabalho e ter como sobreviver. Mesmo que isso custe a vida de outras pessoas. É aquela velha história, se estudou merece seu espaço em relação a quem não teve a mesma oportunidade (leia-se privilégios).
Hoje são profissionais que se dedicam a expansão e desenvolvimento da aquicultura, que é uma atividade que concentra grande quantidade de terra e água, e da pesca industrial, essa que causou a sobrepesca de muitas espécies ecologica e economicamente importantes.
O pior de tudo, é que tá no discurso desses colegas a culpabilização dos pescadores e pescadoras sobre o desaparecimento dessas espécies, como se fossem eles comessem lagosta todos os dias em restaurantes refinados à estilo Europa, e, também, sobre o entrave que essas categoria representa no “desenvolvimento” do país.
Essa é apenas uma das facetas que consigo enxergar.
Uma outra são a dos ecologistas profundos: estudam a biologia das espécies, os ecossistemas marinhos e toda a sua beleza. De uma certa forma, sou até simpático a essa ideia, mas acho que não pode ser só isso. Esse conservacionismo profundo se tornou marketing do empreendedorismo chamado de “sustentável”. Protegemos as baleias, as tartarugas marinhas, os golfinhos rotadores, com o capital dessas empresas, que tornam esse tipo de ambientalismo um produto a ser vendido e, também, “compensam” a sua exploração, tipo: ‘nós exploramos terra, água, petróleo e minérios, mas “salvamos” os bichinhos. Parece que esses profissionais esquecem que o que está extiguindo os bichinhos e degradando tudo o que tem pela frente é o próprio sistema. Lembra que o primeiro grupo culpou os/as pescadores/as pela degradação? Pois é, alguns desses colegas também os culpam.
A parcela com um menor número de engajados, e a esses/as que quero saudar, estão mais preocupados com a conservação dos ambientes costeiros (praias, dunas e manguezais) e lacustres não apenas como uma reverência sagrada a natureza (semelhante a dos ecologistas profundos), mas também de um interesse material por esses ambientes no que diz respeito aos modos de vida, de produção e de reprodução de populações tradicionais que vivem em simbiose com esses ecossistemas. Esses profissionais reconhecem a sabedoria e a contribuição que essas comunidades tem dado a humanidade tanto para a produção de alimentos (grande parte do pescado ainda é de origem da pesca artesanal), quanto na manutenção da biodiversidade.
Infelizmente, no pleno desenvolvimento do pensamento complexo, da refutação do cartesianismo e da crítica a esse modelo de ciência que está a serviço do sistema do capital, os cursos de engenharia de pesca continuam invisibilizando e culpabilizando tanto essas comunidades, negligenciando o seu conhecimento e contribuindo para um futuro quadro de colapso ecológico, cultural e político que se desenha no nosso horizonte e preferimos crê no impossível, que a ciência dê respostas a todos esses problemas.
Provavelmente alguns colegas de sala dirão: “por que no te callas”. Por isso, não vejo o que comemorar.

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