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E o sertão vai virar mar e o mar virar sertão…

No centro das políticas que dão visibilidade (sim, porque precisam ser mostrados, vistos e lembrados pelas estatísticas, indicares econômicos, obras construídas, etc. e etc.) se inserem os projetos de desenvolvimento elitista e modernizador, que produzem bens e serviços de luxo, ou pelo menos não emergenciais dadas outras prioridades. Tais políticas são financiadas, muitas vezes, exclusivamente ou em alguma medida com dinheiro público beneficiando apenas uma minoria privilegiada que tem disponibilidade de pagar por serviços básicos privados (saúde, educação, lazer, cultura e segurança) e artigos de luxo (pescado cultivado e outros produtos do agronegócio) ao invés de ser destinado em outras que beneficiem e privilegiem a maioria empobrecida e marginalizada das periferias, sertões e praias do estado.

Nos objetivos dessas políticas, projetos e programas são discutíveis as afirmações “geração de emprego e renda”, “inclusão social”, “redução da pobreza e da miséria”, “melhoria da qualidade de vida”, “democratização” e outras palavras e termos de apelo social, tendo em vista que a questão de centro são os negócios, os investimentos e os lucros. Em outras palavras, o que realmente se quer é a garantia dos privilégios dessas minorias que, com o apoio do Estado via financiamento, construção de capital físico (estradas, etc.) e subsídios, movimentam o capital e geram bônus e ônus, cuja distribuição é desigual.

Dois exemplos:

O Sertão vai virar mar – A Transposição do Rio São Francisco – Sob a desculpa de melhorar a qualidade de vida do povo sertanejo, levando água para o sertão, o Governo Federal aprovou esse projeto sem ter passado por um diálogo com movimentos e representantes da sociedade civil organizada. É sabido que a seca no sertão é fenômeno natural e espontâneo, quem desde muito tempo tem sido tratado por gestores com oportunismo: distribuição de cestas básicas e abastecimento de água incipiente por meios de carros pipas são vistas como uma moeda de troca para garantia de votos nas eleições e para a passagem pacífica desses projetos modernizadores que concentram a terra e a água. E é justamente o que queria sublinhar esses movimentos: a transposição das águas do rio São Francisco é mais um projeto que concentrará água para as grandes empresas de fruticultura irrigada, de criação de camarão cultivado e para o Porto do Pecém. Apenas uma fração irrisória beneficiará os/as pequenos/as produtores/as. Além disso, esse projeto se contrapõe com a demanda dos/as camponeses/as, que é uma política de convivência com o semiárido (projetos de captação, armazenamento e gestão das águas, incentivo à produção de animais, frutas, hortaliças e cereais próprios desse clima, etc.). Encerra-se, portanto, o diálogo do Estado com a população.

… e o mar virar sertão – O Acquário –Segundo o governador do Ceará, essa obra, financiada com dinheiro público, vai garantir que o turista prolongue a sua estadia na cidade de Fortaleza, gerando emprego, renda e divisas para o Estado. Ok. Vai gerar emprego, renda, divisas e lazer para quem? A resposta é simples, para quem pode investir no turismo de massa (donos de hotéis, pousadas, restaurantes, clubes) e para quem tiver disposição a pagar para entrar no acquário, que muito provavelmente, aqui concordando com a jornalista Júlia Lopes, vai se transformar daqui a alguns anos no atual Centro Cultural Dragão do Mar: vida de bares noturnos ao redor (que beneficiam os donos desses estabelecimentos), “ocupação esvaziada” e toda a marca e ranço do turismo predador. O ônus fica com a população que pagará (e muito caro, 250 milhões!!!) pela obra (Cid adora essas obras belas e que são vistas, fez isso em Sobral e garantiu com muita folga as suas duas candidaturas a governo do estado), assume também os riscos socioambientais dessa obra: higienização social (uma comunidade pode ser removida – Cid adora adotar esses modelos de higienização social, veja só o caso das obras para a copa 2014) e, o mais grave de tudo, não pode manifestar sua contrariedade, tendo em vista que os movimentos urbanos da cidade de Fortaleza colocaram uma série de perguntas que são respondidas com o mesmo jargão “essa obra vai nos tirar da pobreza e da miséria”.

Podemos observar, portanto, que os espaços de debate em torno do modelo de desenvolvimento têm sido provocados por movimentos de moradores/as, camponeses/as, pescadores/as, etc., a quem podemos chamar legitimamente de movimento por justiça ambiental, entretanto o próprio Estado, que deveria garantir, democraticamente, a segurança, a justiça e o bem-estar socioeconômico da população trabalhadora, se recusa a fazer esse diálogo em nome dos interesses de politiqueiros e de empresários. Para não deixar de ser extrema-esquerda-incendiária, esses governos ou são do próprio ou são aliados do Partido dos Trabalhadores. Vejam só que contradição…

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