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Um ponto colorido do sonho no cinza da realidade

O que dizer de Dinah, a personagem bíblica? O judaísmo praticado por sua família era detido por seu pai Jacó e reproduzido apenas aos seus irmãos homens. Suas mães eram declaradamente pagãs e ensinaram a essa moça o culto aos deuses/as de casa. Rituais em uma profunda conexão com as suas realidades, cotidianos e ambientes.

Mas Dinah, por ser uma personagem bíblica, carrega consigo um padrão de religiosidade. Ok. Então, dando um tremendo salto na história, o que falar de Frida Kahlo, uma mulher comunista e convictamente ateia, mas que mantinha uma relação de intensa sacralidade com sua madrinha Morte?

Introduzo com esses questionamentos porque nos últimos anos tenho me recusado a viver qualquer religião que seja. A razão: fui praticante do cristianismo, onde aprendi muita coisa. Jesus tem realmente uma obra interessante, mas que foi estragada pelos seus sucessores e, por esse motivo, nesse espaço também vivi profundas contradições que foram desgastando a minha fé. Tornei-me um descrente.

Embora não quisesse, como continuo não querendo, ser parte de alguma religião, não significa que eu não tivesse interesse de trabalhar questões relativas à minha espiritualidade. É um assunto que há tempos quero e venho tentando resgatar, trabalhar, resignificar. Só que ela, infelizmente, tem sido aprisionada pelas religiões. Está aprisionada a figuras divinas. Isso contribui para dificultar uma prática alternativa, doméstica e cotidiana da espiritualidade como faziam os povos antigos.

Tendo essa angústia como ponto de partida, me fiz a seguinte pergunta: Mas afinal de contas, o que é espiritualidade? É clichê, mas gosto muito da resposta de Dalai Lama a Leonardo Boff, quando o mesmo fez essa pergunta:

“Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”

Essa definição pode ser interpretada de várias formas. Na minha, não vejo expressa a obrigatoriedade de se praticar uma religião e nem mesmo crer em deuses e deusas, ou outros seres sobrenaturais para fazer esse exercício de “mudança interior”. Entendi, portanto, que conheço muita gente que, assim como Frida Kahlo, se afirmam ateias, mas são totalmente conscientes dessas constantes mudanças que devemos fazer, nos vários aspectos da vida: o individual, o coletivo, na política, na família… Logo, são pessoas, que de alguma forma, têm espiritualidade.

No meu caso, mesmo tendo assumido uma postura mais cética, não posso afirmar com 100% de certeza que não acredito no sobrenatural. As práticas familiares pesam muito. Logo, essa minha postura quer dizer apenas que para mim, acreditar ou não em alguma coisa não é vital. Uma questão vital para mim é provocar sempre essa mudança interior que é extremamente paradoxal: conhecer minhas potencialidades (valorizando-as) e limitações (observando-as e trabalhando-as), assim como as das pessoas que me circundam; de me manter ao mesmo tempo na luta por transformação, que algumas vezes são tão pesadas e desumanizadas, mas também ter harmonia para fazer esse percurso de uma forma mais leve; e, como consequência desses dois primeiros paradoxos, viver bem.

A psicologia não dá conta da nossa complexidade, apesar de ser importante para nos compreender de alguma forma. Digo mais ainda, nenhuma ciência dará, pois nos avalia a partir de arquétipos. As religiões, desde as mais antigas às mais contemporâneas, também não. Aliás, acho que nunca desvendaremos os nossos próprios mistérios assim como os mistérios que nos circundam. Enquanto humanidade, sabemos muito, mas quando comparamos com o que ainda temos a aprender, não sabemos nada.

A única certeza que temos, ou deveríamos ter, é que há coisas nessa vida que se pode provar e outras não. Tendo isso em mente talvez fôssemos mais tolerantes e tivéssemos mais compaixão para com os outros e conosco. Buscaríamos o que procuramos com mais tranquilidade. Seríamos, cada um, o ser único que é. Que vive e convive em diversidade. Dessa forma, nos aceitaríamos como sistemas abertos, onde as trocas, as conexões, as experimentações fossem mais saboreadas, mais ousadas e acolhidas.

O que dizer de mim? A minha inacabada espiritualidade, sem Deus, sem reza e sem Bíblia, me faz bem e me torna melhor por isso. Porque me permite participar, mesmo que por poucos segundos, do prazer de viver isso que mencionei acima. É a minha utopia, minha mística que me alimenta para a dureza do cotidiano e das relações que construímos. Logo a minha espiritualidade não me desenraiza do chão da realidade. Ela não me faz perder de vista os desafios que temos. Em suma, ela é apenas o meu ponto colorido (sonho) no cinza (realidade).

PS.: Eu tinha abandonado essa prática, mas esse texto da Renata Lins me fez retomar esse caminho.

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1 Comentário

  1. Renata Lins (@repimlins) disse:

    Fico muito, muito feliz de cumprir esse papel. Há muito tempo tentei ser atéia, por breve período. Pra mim não serviu. Tenho ligação forte com o místico, com o mágico, com tudo o que religa. Gosto de rituais, gosto de comunhões. Gosto de rezar o Pai Nosso de mãos dadas. Gosto de fogueiras sagradas, gosto de danças circulares. Entro em qualquer templo que me aceite. Beijos, querido!

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